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Setembro 11, 2005
Setembro 5, 2005
HOJE URGE HOJE
Prevejo dias difíceis. Frio na barriga. Vontade de brigar pela mínima condição de humanidade. Cigarro, voz e ansiedade. Um silêncio. Nada de dor. Só pulsação. Incômoda porque nunca sentida. Sem vento. Parecerá dor às vezes. Só encarnas distorcidas. Quebra-cabeças com peças à deriva. Como aquelas que meu irmão jogava pela janela quando era criança.
Prevejo dias de silêncio dentro da minha fala constante. Sorrisos vazios de uma felicidade distante. Mas que se esforçarão para sorrir. Com balas de laranja. Trilhas sonoras que me farão viver memória. Deuses correrão o rascunho de minha história. Serão dias quentes mas os verei cinza só por alguns dias. Pensarei em anjos e forças protetoras. Pedirei ajuda. Sentirei a presença de alguém que não vejo. Tentarei ver e esquecerei de abrir os olhos. Tentarei esquecer e a lembrança cobrará a demora. Toda confusão quando eu pegar o telefone para falar com mamãe. Vou ouvir de novo o acorde único e destoante. Eu pedirei força. E sentirei o vento. E já sei que tenho o bastante. Alguma eletricidade vai passar entre meus braços e reconhecerei quem me chama. Alguma vontade me será forte e não conseguirei dormir. Precisarei das drogas que até hoje precisei e consegui. Beberei sem o corpo que antes as revestia. Depois de todo o sonho, chegará o dia em que vou sorrir por sorrir para sorrir como agora. Enquanto o tempo amalgama o espaço e tudo existe neste momento com a calma respiração simplesmente calma. Um toque de céu e caridade. Um abraço. O momento de doação. Sem lembranças de julgamentos injustos, olhares difusos, fortalezas tão fortes que escondem outras cabeças mesquinhas. Dançarei a racionalidade embebida em toda pulsão que me fará acordar para sentir. Lendo Bernard Shaw e Monteiro Lobato para aquelas crianças. Rasgando alguns outros livros, como este ao meu lado. E lhes dando algumas páginas para que elas possam me reconstruir. Olharei para o horizonte sentindo o sol queimando no rosto, o amarelo gritante, o ego descolando da retina, o vermelho pulsante, o tal sorriso que me invade agora, presente de mãos dadas a minha calma para poder voltar a dormir depois de tanto amanhã. Agosto 15, 2005
AMPULHETA
Se os dias forem estranhos, toma tua forma de céu e transcreva aqueles versos que ninguém ainda leu. Vira a criança que semana passada você criou. Chora, tira a roupa. Deita aqui. De tangente soslaio como os seus olhos fazem quando não acreditam em mim.
Marca um ponto no horizonte e joga o dardo. Vota nulo e escreva o conto que eu te li. Chora a mágoa, toma a água, espera o efeito passar. Toma conta de mim. A criança que semana passada você criou. Pensa que é a última vez. Subtraia e multiplique seus dedos, entenda meus medos, sorria e coma bem. Quando os dias forem estranhos, desafia a morte. Sonha que o paraíso comprou mais terreno e te deu. Meu corpo cresceu. Acorda e vem disputar nossa última batalha. Já posso viajar sozinha. Espera pela pergunta antes da minha resposta mesquinha. Não olha pra trás. O destino passou. Toma um gole do que é meu. Lembra que eu vi as mentiras bonitas. Pensei e fiquei com nojo e parei de respirar. Falei pouco e não quis escutar. Nem discutir. E na terceira pessoa tudo parecia mesmo esquisito. Contrário, diferente daquele que proclamava tratados. Todos falsos. E o mentiroso ficou com nariz de palhaço e não caiu por um triz. Mas a máscara derreteu. E ficou só o corpo amorfo e descomunal, que pena a decadência mas continua ali. Não deixa os dias ficarem estranhos assim. Faz velocidade do meu amanhecer. Olha o relativismo que compõe as meninas de mim. Ana, Joana, Viridiana, Catarina. Que rimavam enquanto pulavam a amarelinha pintada no chão. Não esqueça meu cigarro e minha xícara de chá. Toda a minha freqüente alucinação. Me proteja da agressão. Do palhaço, do mago, do infeliz. Da dor de garganta, da minha pretensão. Agosto 8, 2005
OSTINATO E PORTAMENTO
Se me fosse permitido eu poderia passar um dia inteiro ouvindo a mesma música, fumando o mesmo cigarro. Uma jarra de café. Ou de chá, que venho tentando usar para substituir a cafeína. Poderia parar e ficar pensando durante todo o dia como é fácil e difícil viver. Deixar o vento cantar repetidamente a cada vez que eu colocasse a música para tocar de novo. Minha cabeça funcionaria em compassos. Geralmente quatro por quatro. Geralmente em ré menor.
Eu poderia esquecer o que acontece com o universo. Seria o centro dele. E apenas. E simples assim. E acreditaria que não há no que acreditar. Receberia notícias de alguém querido. E como resposta, diria olá, gosto de você. E simples. Assim, gostaria por gostar. Como gostaria desse barulhinho de mar que chegaria de leve como agora. Se me fosse permitido, eu seria deus e criaria um só mundo cheio de coisas boas e felizes e inocentes. Olharia o amuleto e veria tudo o que mora em cima e embaixo, se repetindo repetindo repetindo, sendo para sempre igual. Não contendo o tempo que meu espaço ainda pediria para explorar. Eu ouviria a mesma música mais de dezessete vezes, a mesma ao longo do dia. Em momentos, ela me arrepiaria. Em outros, eu quereria chorar. E me perguntaria sobre as razões das coisas. E não teria resposta. Bateria o cigarro no cinzeiro azul, e a brisa eu beberia. Engoliria seco o rasgo que me causaria a falta de crença no que é essencial e que não é exposto. O sol me exporia às queimaduras que me seriam de dentro. Se me fosse permitido, eu compraria aquela casinha feliz sozinha perto do píer. Tomaria chá querendo café, mas aos poucos me acostumaria com sua textura menos negra e seu som mais agudo. Veria que preciso de tão pouco para ter minha casa perto do píer quando a linha do horizonte fosse tão reta e o sol transpusesse minha alma ao se deitar. Entenderia como é mentira quando acredito. Saberia como é verdade quando quero. Usaria a primeira pessoa do singular sem a menor vergonha. E me permitiria não ser lida. Ouvida ou falada. Desmembraria cada fragmento contrário daquilo que se apresentou sobre pompas sérias e enfáticas. Contaria mentiras que seriam verdades de tão bonitas e agradáveis. Ouviria as vozes que um dia me beijaram e nelas eu cuspiria. Olharia e meus olhos se tornariam amarelos e entrariam dentro do que mente no outro. Devastaria a solidão que o assola. Esfregaria que eu sempre estive ali, sempre, só um pouco mais ou menos só. Corrigiria algumas palavras e faria um filme. Transformaria uniões em celebrações da verdadeira genialidade. Comeria alegrias, apagaria a luz. Fumaria outro cigarro vermelho, com minha tosse levemente prudente. Se um dia me fosse permitido, eu pularia dentro do copo com dry martini e pescaria a cereja com a boca. Molharia toda minha roupa. Abraçaria de abraço molhado todos que mergulharam também. Sairia do copo e escreveria um livro. Teria memórias encantadoras e fascinantes que valeriam a pena que se gastasse o nobre dinheiro em troca da misere arte. Sentaria no café e sentiria vontade de chorar de novo pois a música continuaria lá, e nos momentos críticos de crescendo ela sempre daria vontade de chorar. Da capo. Porque o choro é o cosmos que extravasa do pequeno universo para a grande idéia. E eu deixaria meu cosmos transbordar e dentro do meu universo inventaria o telefone e ligaria para o meu pai e diria que está tudo bem. Eu viraria uma pessoa. Pessoa. Se um dia me fosse permitido eu viraria uma pessoa. Andaria pela rua de chão cinza e céu levemente azul com rosa. Esqueceria quem era maestro no que morreu. E começaria a conhecer os novos regentes. Que então teriam também os seus cosmos transbordando. E falariam sobre ele com a mesma naturalidade de quando tiram a roupa e beijam delicadamente o seio da mulher que lhes pulsa mesmo quando não causa amor. Calariam com a mesma leveza de quando seguram o falo que lhes extravasa mais cosmos de maneira semelhante às lagrimas que limpam o copo de Martini. Eu não mais duvidaria porque não mais me importaria se um dia acontecesse. Aconteceu hoje. Eu vi o sol confusa e bebi a música em diminuendo. Julho 29, 2005
PRINCÍPIO
Às vezes existe uma força que me diz que as coisas acontecem com um propósito. Não conseguimos entender, mas sempre há um propósito. Outras vezes, a pedra que me solidifica depois de cair a última gota de resina cortante, amalgamante, não diz. Silencia de doer meus ouvidos com tanto nada. Nessas vezes, lembro que qualquer sensação, sentimento, pressentimento, emburrecimento, é nada mais do que ligações químicas, traças de sinapses e de matéria bruta, que não dão a mínima para mim e para a minha prepotência quando acredito que penso. Quantas vezes aconteceu de eu chorar e um pingo de hormônio nada metafísico me fazer lembrar que não existia dor, a não ser das concessões que o próprio corpo permite doer.
Mas teve uma vez que me lembrei de uma vida tão viva que não me parecia apenas instinto do que me era químico. Tinha vida tão viva que chorava e sorria autônoma, durante o sonho, durante o inconsciente resíduo que insistia em gritar, depois que os hormônios e as soluções de solutos e solventes já haviam me corroído. Eu queria acreditar em algum deus e queria acreditar. Puxar da palavra intuição o que ondas eletromagnéticas me faziam antecipar. Eu queria ver o grande elo. A grande idéia. O grande campo onde as criações eram concebidas e geradas numa lama de sangue e águas e éter. Do lodo, a grande idéia era eu mesma existindo naquele momento. Eu queria encontrar o complexo da vida porque eu achava que éramos muito além do que me era além na linguagem, e só por isso pensei que já merecíamos ser obra de uma entidade divina. Mas éramos tal qual a pedra ao pé do Vesúvio, tão lindo Vesúvio, mesmo quando destrói, mas não destrói, porque destruir é parte do discurso e do mundo que vive naquela pequena linguagem de onde eu venho. E éramos iguais à pedra mas sabíamos perguntar por quê numa língua que só nós decodificávamos. Não entendemos a língua da pedra, pois o que ela diz é barrado pelo limite imbecil e cheio de predicados do corpo que não deseja ouvir que somos todos iguais, querendo ser mais, e tudo isso de pensamento não passa de uma organização idiota. Somos todos idiotas, todas as vezes, sempre que lembramos e esquecemos que nascemos livres mas vivemos com o objetivo de encarnar a liberdade universal. Idiotas todas as vezes que cobiçamos, que renegamos o instinto, que desejamos monogamia, que escolhemos putaria, que lembramos de ternura cor de rosa, que lembramos de rancor simplesmente idiota. Uma pedra é uma pedra. Eu sou eu e uma pedra. E só continuo perguntando o porquê porque me é da natureza das químicas que, imperfeitas, me causam uma dor que não dói de apertar, mas aperta o estômago subindo num fio que dilacera pela nuca num bocado de água pelos olhos. Meus olhos castanhos. Felicidade também dilacera às vezes quando uma ou duas cordas daquele violão me fazem vibrar com todas as minhas moléculas junto à vibração daquelas cordas reluzentes. Nada transcende. Nada se intui. Os neurônios que mato agora com a fumaça leve que penetra em meus pulmões são os neurônios que não me ajudarão com o milagre diário da memória porque eles não estarão mais lá. Assim como os tecidos que esgarço com a mesma fumaça não me ajudarão a entender de onde vem esse sentimento de sorriso que me chega por causa de uma lembrança que tive momentos atrás. Que regenerou todos os meus conjuntos. Me flagrou respirando todo o meu infinito. E só a partir dali me senti feliz por me entender viva e por não conseguir entender o meu deus. - Current Soudtrack - Beyond the Sunrise - Belle and Sebastian Julho 11, 2005
"Listen to the girl
As she takes on half the world Moving up and so alive In her honey dripping beehive Beehive" - Jesus & Mary Chain - Fechado para balanço. Julho 4, 2005
O SORRISO
Lembra daquele dia, quando fomos presos e não havia telefone para avisar a mamãe que iríamos dormir fora? Depois daquele dia nunca fomos os mesmos. Havia um cinza pesado no ar. Algo deslocado. Se eu pudesse te dizer que tive medo naquele dia você não acreditaria. Era medo de tremer frio nas pernas e o pensamento que tremia também.
Sabe, eu nunca quis seguir moda ou construir um mundo com prosa. Eu só queria jogar amarelinha vomitando coelhinhos e deixar meu corpo descansar um pouco. Um pouquinho. Eu lembro de tantas coisas e esqueço poucas. Esqueço nomes de música, esqueço nome de ruas. Mas não esqueço das pedras no caminho. O subjetivo. Aquilo que foge à imagem e ao corpo, que traz éter de felicidades ou de incertezas. Não esqueço. Vivo. Me lembro do dia em que fomos presos. E agora eu só queria calma. Eu só queria paz para a minha cabeça que não agüenta mesquinharias. Pelo menos durante os próximos cinco minutos. O ego é a hipoteca que vem do outro. E mamãe ficou triste porque dormimos fora de casa. Não havia como ligar, você lembra? Não havia como mostrar que não havia solução. Os problemas muitas vezes não têm solução. Como no dia em que nos prenderam... Eu me arrisco a dizer que não poderia me importar menos. Porque mãe que é mãe já espera a nossa prisão. Porque a vaga que me cabe dentro de mim já está ocupada. Ocupada com tantos e tantos mais sentidos. De felicidade que explode. De tristeza quando vem e alarga os sentimentos. Estamos todos no mesmo barco. Mesmo que na caverna, mesmo que na prisão. Uma abelha que sempre costuma me trazer mel disse que eu sou uma bagunça. Eu sou caótica num mundo que flutua. Eu amo abelhas zumbindo de sorriso me contando mais sobre meu mundo. E alargando minha percepção. Me fazendo chorar no mesmo frame que minha alegria esboça um olá. Depois daquele dia, mamãe entendeu que poderíamos não voltar. Mas não era de medo que tremíamos. Após longo respiro, sorríamos o tremor de vida. Da prisão mais livre, a vontade de nela se atirar. - Current Soundtrack - Mediterranean Sundance - Paco De Lucia, Al Dimeola, John Mclaughlin Junho 21, 2005
SEMANA DE ARTE CONCEITUAL por Kátia Mello.
Existe vida além dos monitores. Cuidado. Kátia Mello vicia. Quando menos esperar, você já estará dependente dela. Junho 17, 2005
ESPOSADO
Uma passada rápida. Passada rápida de olhos. Que começa a se alongar. Absorve e já não há mais arredor. E as palavras. Palavras desnecessárias. Palavras podem ser desnecessárias? Respirar pode ser desnecessário. E o que combater? O que é preciso combater? Eu não acredito em quem detém verdades. Eu acho uma nova verdade a cada dia. E eu vejo o vazio. Eu gosto do vazio. Eu não acredito em quem não sente o próprio vazio. Eu mordo. Eu beijo a solidão. Sempre pulsa algum hiato. Só não pulsa quando não vale a pena a existência. E respirar torna-se estritamente desnecessário então. Se há uma asa que realmente voa e quer voar, não há quem consiga freá-la. Com adjetivos. Sem adjetivos. Com ou sem óculos. Imatura, prematura, criatura da criatividade constante que é ser, mesmo que escravo, pensando-se livre. O homem não nasceu para ser livre. Mas para desejar a liberdade.
Juan Rulfo é o nome do senhor que habita meus últimos vôos. Meus sonhos últimos. Mexicano, um dos escritores do não. Daqueles gênios que podem nos fazer enxergar além da possibilidade literária. A construção de tipos prevendo o fantástico. Narrativa que rouba nosso escopo, deixa-nos reféns da criatividade alheia, embebidos no éter da criação. Da inspiração depois muito trabalhada, lapidada em prisma quase irracional, não fosse a maestria do rasgar, jogar palavras. Substituir, modificar, trocar, adjetivar, para trocar de novo. Ao longo de anos. E dizer menos falando mais. A vitória da elipse. A súplica modesta por uma conversa com o leitor. Venha, mas que venha despido. Liberte-se da colcha que enodoa seus preceitos e preconceitos limitados. Alguns homens conseguem ir além. Fugir do alistamento. Não ser mais um soldado no batalhão. Os rebanhos talvez sejam necessários para a ordem darwinista. Mas que auspicioso é poder fitar aqueles que não são soldados. Muito menos generais. Aqueles que se recusam a fazer parte do exército, simples assim. E poderiam ser de alta patente com o tilintar de suas pálpebras. Mas recuam. Tornam-se ainda mais admiráveis. Exercitam diariamente a negação de qualquer ranço que venham a alimentar. Qualquer crítica embasada no rancor do crítico ou na viscosidade de julgamentos pobres e melindrosos. Qualquer despeito por não dominar a arte que, talvez, gostariam. Apenas praticam a vida que a inspiração lhes permite ousar. O cheiro do gênio é sentido de longe. Mas seu vôo fica muitas vezes vulnerável ao engodo do conservadorismo torpe daqueles que desejam liderar rebanhos, buscando numa lógica capenga e ressentida a repulsa para o ofício do que simplesmente inspira e é reproduzido. Não mecânico. Mas que pode ser lapidado porque frágil, imaturo, reflexo igualmente falho das inter-relações demasiadamente humanas. E, de sentido, sinestesia, simbiose entre razão pura e misticismo fantástico, pode nascer um equilíbrio além da lógica extrema que muitas vezes precisamos abraçar para continuar a respirar e ter o que combater. Juan Rulfo é literato de uma obra só. Alegando suas asas terem sido cortadas, parou por ali. E não competiu com a própria criação, tão universal e completa, que, num primeiro momento, limitou a poucos contemporâneos o entendimento daquele registro. Homens como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e Juan Carlos Onetti entenderam. Rulfo, que morreu em 1986, é hoje um dos mais estudados escritores latino-americanos, considerado o precursor do realismo fantástico. Ele, que sozinho construiu seu universo através de Pedro Páramo e El Llano en Llamas. Ele, que sozinho me desposou nas últimas duas noites. Ele, que escrevia com o insigne intuito de combater a própria solidão. - Current Soundtrack - I'll be your mirror - Velvet Underground & Nico Junho 8, 2005
QUINZE MINUTOS
Ele sorriu. Cantava e pela voz que sorria eu ouvi o sorrir. Escorria um orvalho quente quase perto. Eu pensava se aquele orvalho me traria lucidez. Eu sentia uma alma roubada desenhada a nanquim, como se meu desenho fosse o pescoço nu da minha fragilidade que desaba.
Eu batia na ponta do bastão que emancipava incerteza. E as cinzas pastosas de luz no cinzeiro vermelho. Era Gilda quem batia. E tinha pose de Gilda. Gilda batia quase na extremidade do bastão e amava e queria tragar aquele todo. Que cantava e pela voz que sorria dava para vê-lo seus olhos claros. Eu abri a janela e precisava de ar. E o céu da cidade era limpo e os olhos mais ébrios e eu sentia a expansão do meu corpo dentro da grande idéia. Eu fotografei o momento, pois a cegueira que eu não conhecia podia chegar. Eu lavava a minha roupa e alguém me chamava. Ele cantava. Alguém que passava jurou ter me visto sorrir. - Current soundtrack - Heroin - Velvet Underground Junho 2, 2005
47 EGOS DENTRO DO EU
Mamãe falou que eu iria casar com um músico ou um professor. Mas eu não quero casar. E se ele roubar o que eu não vivi? Se trespassar o olhar, qualquer penetração além do tempo delimitado por dois ou três sinais é desnecessária. Se eu for capaz de comer o que lhe é intelectual, posso fingir que não sou inteligente? Posso fingir que não sou inteligente para comer o que lhe é intelectual. ![]() Maio 23, 2005
JUVENIL
Um dia me ensinaram um nome que dava forma para a palavra. Mas esse nome não tinha nome. Era um olhinho de bola de gude quando sorri porque viu felicidade no chocolate. O arrependimento da virgem hipócrita pela virgindade que ela não cedeu. A dor da avó quando viu o netinho raspando o dedo mindinho e agora está cuidando dele. A raiva da chuva que cai mas não me molha. O mundo que roda e não tem razão. Eu, que não tenho razão. O pai que espreguiça e olha a mãe dormindo depois da noite em claro dando o peito pro bebê. O sol que chega e abre o sorriso que esquenta o rosto da namorada. A velha que passou mais da metade da vida só. A escolha da velha. A velha, que é a sua avó.
Um dia eu li um livro. Eu li dois livros. Eu li poucos livros. Um dia eu viajei de avião. Uma vez eu conheci muitos lugares. Algumas outras, não. Um dia eu permiti não me fazer entender. Mas tentar ver se naquela mão quente que queria morder meu rosto frio havia explicação. Um sorriso que sorriu de mim. Um pensamento que pensou que podia ter sido diferente. Um barbeiro que abandonou a filha. E hoje vive infeliz. Um dia eu era menina. Um dia eu era mulher. Um dia eu já fui homem. Um dia eu fui rajá. Eu que vivi na Índia. Eu que gosto de Roma. Eu, que fui pro Cabo, mas quis sair de lá. Um dia eu aprendi um nome de palavra para explicar. Mas o nome que aprendi não tinha nome e era o suspiro do lembrar. O beijo que um dia ele provou mas não teve como dominar. A saia que do corpo dela rasgou. A vontade de ter sido alguém diferente. O sol que um dia não quis levantar. Um dia eu perdi tempo pensando um pouco. Um dia me peguei pensando muito. Um dia eu resolvi juntar metalinguagem ao molho da forma. Fiz bolo sem precisar de acentuação. A fôrma tinha forma de palavras d-e-l-i-c-a-d-a-m-e-n-t-e repousadas em duas colheres de sopa de açúcar. E uma xícara de chá. Eu poderia ter colocado uma colher de sobremesa de sal. Mas nem tudo o que se segue à risca é o que vai fazer lambuzar o lábio da criança. Alguns segundos de desperdício de pensamento sobre as razões e eu já não encontro o porquê fazemos como fazemos. Porque é tão fácil entender o que é padrão. E inseguro jogar-se onde não precisa haver lógica. E ainda assim a gente insiste no não. Um dia Dalí disse "Cuidado! Eu trago o surrealismo!". Um dia eu amei Dalí. Um dia eu quis ser Dalí. Um dia eu quis comer e digerir em minha alma tudo o que era novo e tudo o que deixaria a minha existência menos pequena. Um dia eu quis não ver que a palavra tosca - assim, feminina mesmo -, simbolizava a essência de pessoas que eu sei que existem. Eu quis não ter nojo da ignorância por opção. Eu quis não repudiar a imagem daqueles que dizem ter lido o que não leram. Eu quis não me preocupar que, a tão poucos passos, o ódio é difícil de não ser sentido. Eu quis sublimar e ver palavras. Encontrar o nome. Um dia não me ensinaram o nome. E eu também não quis aprender. Mas eu continuei vendo olhos de bola de gude na minha inspiração. Chocolate e melancolia. Com espasmos de felicidade burra e, meu deus, tão plena. Continuei vendo o divino onde o deus tinha morrido. E continuei não querendo fazer razão. Queria ver o que pulsava no outro. Porque meu mundo se faz de tão pouco. Porque, sim, sim, eu sou tão pequena. Como todos nós somos. E de universo montado em cima de universo, cheio de meridiano e transversal, é que se faz a minha perspectiva que não tem nome. Eu queria régua e esquadro pra lembrar como a tia me ensinava a ser eu. Mesmo que fosse um eu tão roubado do outro. E pequena, e cada vez menor, encontrando o que as palavras não podiam dizer. Nem nunca dirão. Vendo que na negação existe sempre uma afirmação. Que na música mora a fonte incessante do querer mais bruto e sensível. Um dia eu vi um nome. E senti nojo. E senti piedade. E não senti nada. Eu sentei para escrever. Maio 19, 2005
AVOLEZA
Se de um lado estreito existe a possibilidade de viver, do outro fica a idéia de que a escravidão é a bainha de uma saia bem tecida. Rodada, delineada em corpos que flutuam sobre olhares minuciosos, ela não permite que se abram as pernas. Repousam, então, catatônicas. Quase em estado de cãibra, não fosse a histeria. Conhecendo a possibilidade de realizar o que era desejo, a necessidade das pernas aumentarem o grau que as separam é quase sufocante. Sempre na iminência de algo, sempre no anseio do próximo devir. Se não houvesse a prisão com grades que intercalam bem e mal, talvez o vir a ser seriam as pernas sorridentes, afastadas e sem cãibras. Se a felicidade não fosse penalizada como um prêmio para o bom comportamento, não haveria a razão que impele esse respeito medíocre ao medo. Ai, quantos vazios passam pelos ventos que ventam entre as pernas. E há tanta poeira que os olhos não vêem. Quando eu era jovem e tinha minha máquina de costurar, eu fazia as roupas para minhas irmãs. A do meio ficou grávida aos 16 anos e a mãe quase morreu. Mas foi o desgosto que começou a corroer a bainha de seu vestido verde de matrona. Minha irmã teve que viajar, foi pra Minas. Lá, se casou com o moço bonito que tinha plantado nela o sal e o azedo da realidade. Ela tinha piedade, e não deixou que suas pernas ficassem fracas diante da viagem, do desgosto da mãe. Eu ainda não sei de onde ela tirou a idéia que um dia teria perdão. Mas foi assim que viveu. Buscando desculpa. Buscando dar o peito e ensinar que era doce o que escorria dela. Costumava apoiar as pernas num banquinho marrom de madeira e descansar qualquer histeria que às vezes batia. Ah, mas ela não sabia o que era histeria. Ela só sentia um nervoso junto com um medo que, de vez em quando, fazia ela sentir calor.
De um ano pro outro, ela começou a costurar as próprias roupas. A mãe já começava a sentir saudade, mas não admitia que alguma filha usasse saia sem contar pra ela. Ter vontade era coisa pra caipira ou pra quem não tinha educação. A gente até morou na roça mas não tinha nascido lá. Magina se a mãe ia criar filha pra depois ter que repetir o pai nosso. Eu casei cedo e um dia enviuvei. Morei perto da mãe até não conseguir mais olhar as crianças brincando na rua. Dentro de mim tinha alguém que falava outra língua. Alguém que não me deixava mais vestir do jeito que eu queria. Eu não entendia de onde vinha aquele muro que escondia o sol. Pouco depois do marido, foi a vez da mãe ir passear. Às vezes eu penso que eles devem comentar sobre a gente. Confesso que sinto um medo danado. Mas tenho certeza que minha irmã do meio sente muito mais. Outro dia, o marido dela também foi embora. Mas é tanta preocupação que a gente acaba nem ficando tão triste. A coisa mais importante é ver os filhos da gente sentindo a falta que a gente faz. A gente não sentiu tanto a falta da mãe porque já tinha família. Não sentiu falta dos maridos porque já sabia costurar. Mas os filhos que a gente botou no mundo não sabem direito como fazer parar as cãibras que de vez em quando dá. Então, vão deixando que a dor imobilize a vontade de trabalhar. E o trabalho é o que faz a gente esquecer de tudo. E eu esqueci de ensinar minhas filhas a costurar. Vira e mexe tem teia de aranha brincando na sujeira onde elas moram. Eu sinto tristeza quando vejo aquela bagunça porque desse jeito nenhuma delas vai conseguir casar. Elas não usam saia, não sabem agradar. E eu só fico olhando daqui. Minha irmã do meio veio morar comigo e não trouxe a máquina de costura porque não ia caber. Eu fico torcendo por cada uma delas. Minhas filhas, minha irmã e a máquina de costurar. Se tem uma coisa triste é que eu não sou mais jovem, e não tem mais a mãe pra conversar. Mas eu acabo esquecendo disso quando fico por aqui, descansando as minhas pernas bambas, assistindo contente a poeira dos cantos ou guardando os tecidos pra um dia voltar a costurar. Maio 16, 2005
TERCEIRO LADO DA MOEDA
E se eu tomar o ônibus e parar com essa choradeira desnecessária? Vou deixar mais vazio o que não existe. Ah, que o abismo sempre pode ser maior e indolor. E não é porque não causa dor que é melhor. Não é porque não tem lágrima que é menos drama. É feio, é elefante com cara de homem inocente e tão feio. É tão sem sentir o que se sente. É tão fim da linha que ainda tem uma eternidade. Se fosse branco teria cor. Mas é pálido e bege. É uma grande gengiva escorrendo sangue e enojando o nada ser. É sem paradigma ditando o que não seguir. É sem endorfina ou serotonina de toda uma tristeza química provocada pela falta de transcendência. Pela não existência num abismo que é tão bege. Vai, que eu quero fumar o seu corpo inteiro até conseguir me integrar novamente nesse mundo tão desnecessário. Vai, que eu preciso de dinheiro e não tem mais fome. Porque de ego mais todo o brilho lampejante nas mãos tão feias e tão pedintes e eu vou te desapontar quase agora, cuidado.
Estou atrasada. E se eu tomar toda a forma do que te desagrada em nome do que eu represento? Me disseram que a vida não era mais do que a ilusão do sonho de alguém que está me sonhando. Agora, agora. Agora, agora. E continua sonhando. Acorda. Tem um besouro grande e cinza escamoso querendo entrar. Agora. Vai, agora. Eu não quero continuar. Interpretar o sonho que me sonha. Agora, agora. Fora da cabeça que não ouve a música nem sabe poesia. Vai, que estou quase me apropriando e falando de palavras que não lembram que sangram, e não reclamam, mas dizem em eco que a eternidade é demasiado enfadonha para mim. Eu sou os ondes. Os lugares que eu olho e não recebo chão. Estou cansada. Meus filhos e meus frutos acabaram. Eu só queria um toque que me fizesse acordar. Agora, agora, agora. Eu queria olhar nos meus olhos. Eu queria entender o belo. O bom. O que me engana. Eu quero o que me engana. Eu quero vozes sem imagens. Eu quero assombração. Eu quero um oi que me ajude a falar o que não acontece. Eu quero chiclete, eu quero parar de machucar. Eu quero um eu melhor. Eu quero que o besouro não me assuste. Eu quero pegar o ônibus e trocar a carcaça. Eu quero atormentar quem ousar gostar de mim. Maio 11, 2005
RANCHARIA
Tinha dias em que os calos da mão direita eram o firmamento. Na roça era assim. O azul só penetrava quando toda a dor se fazia aparecer, sô. Tinha família inteira que nascia e chorava na dor. E o machado que cortava o sol fazia da plantação algo mais que valioso. Era o sustento e era o mastro. O corpo e a luz da gente da roça, sô. Se do trigo o pão saía amarelo, o amido corroia o sangue cheio de ódios velados. Mas eram ódios inocentes, sô, porque era o querer bem que fazia da lida o elo e o espírito do que existia. Tantos tijolos que enfeitavam a casa cheia de camas e irmãos. Tinha muito mais amor doído que rancor infantil.
Eu ainda não sei se o pai cantava porque se importava com o som ou se por querer esquecer tanto silêncio. A gente da terra precisava aprender a entender o que o silêncio dele ensinava. De vez em quando, até ardia um pouco o calor que o sol dourava. Mas a gente continuava na lida e caminhava. Cortar e refazer o que não teria para comer naqueles dias. Não é de dor que a gente chorava. Mas por saber que da terra vinha o suor que a gente não merecia. Eu queria saber ser forte igual ao pai. Ele entendia a vida. Eu e as meninas ainda tentávamos olhar o que não existia de vida. Mas ficava difícil quando, por vezes, a vida da gente explodia. Insistia nessa coisa que a gente não sabia explicar, mas sentia. Eu tinha vergonha era da cidade, sô. Eu tinha medo porque a casa da gente tinha tijolinhos e o pai acendia fogueira quando fazia frio. Na cidade tudo podia ser diferente. Mas eu desconfio que nunca existiu nada dessa tal cidade. Eu falei pras meninas que isso devia era ser invenção daquele moço que tinha sol dentro do olhar. Igualzinho ao sol da roça. Que roça dentro da gente. Eu vejo os calos da mão direita. A outra mão sempre foi boba e mais bonita. Até hoje eu não entendo muitas coisas. Eu não enxergo mais o silêncio do pai. Eu fico esperando o sol levantar junto com a noite que vai dormindo tranqüila pra lá do campo. Aprendi a fazer pão e os meninos que não são meus gostam de comer quando ainda está quentinho. Tinha gente que nascia e morria na dor. A gente só vive. Não se sabe onde. Nem se vai terminar. Mas a gente vive. Sô.
TREMELUZIR
Tanto e mais que depois não havia o que pensar. Cansaço e felicidade. Necessidade da voz e toma, leva e devolve depois. Quanto tempo você vai passar fora? Eu não sabia e precisava te dar um beijo de adeus antes da grande jornada. Eu, que pensei ir antes, não suportei a notícia. Quando os sonhos diziam que as asas permitiriam todos os nossos vôos juntos por sobre aquele castelo tão bonito castelo que era aquele, eu acreditei.
Era uma música que eu precisava para inspirar o que a minha memória trazia junto com os olhos que me beberam de vontade naquele dia de sol que já anoitecia azulado. Eu precisava ouvir novamente a seqüência repetida dezessete vezes dezessete. Sem medo, sem vírgula ou paráfrase freando a minha razão. Porque quando o tempo permanece parado e não voa junto com os sonhos, meus olhos tratam de inventar casinhas de histórias bonitas. Que são porque desejam. E basta. E se, depois de tudo isso, um mundo inteiro ainda restar para ser vivido? Sua partida já urgiu. Mas não ter medo é mais do que ser feliz. É se saber escravo da casa e, ainda, tão livre por causa do sorriso único que sorri e pode também machucar. Tremeluzir que só poderia partir daqueles lábios, tão bonitos os lábios que olhavam para mim dizendo sobre tanta vida que queria acontecer. Dentro da casinha onde a livre associação e a inspiração ainda fazem chocolate. E se eu não quiser? E se eu entender? Não precisa de resposta quando a vida pulsa na pele que gosta e goza e vive e chora. Mas quanto tempo você vai passar lá fora sem me dizer a palavra que eu queria ouvir? Não importa. Sempre que eu souber que um pensamento pensou naquela vida, cítaras serão anfitriãs do nosso mundo. (she is so young and old, i look at her and i see the beauty of the light of music, the voices talking somewhere in the house) E se a gente não se importar mais e cantar do jeito que sabemos? E se, a partir de então, a concordância do nosso mundo for construída com os tijolos das nossas boas intenções? Se o teu calor encostar de felicidade no meu calor, eu sei que as minhas certezas viajarão junto contigo. Meu riso não será tão triste como quando você não está. Um pedaço de poesia ainda me fará dormir vendo aquele quadro do Dalí. E quando eu sentir o sono aparecer, do teu corpo o meu corpo vai ser ocupado. E para sempre é o tempo em que eu vou te olhar. Toma, leva e não precisa devolver nem mandar. Fotografia, videoclipe, cartão postal. Faz tanto tempo e a felicidade já se cansou. - Current Soundtrack - You are the everything - REM Maio 9, 2005
DIÁRIO
E se os sorrisos não voltarem com o sol? Eu preciso de mais energia. Foram tantas cantorias. E eu, contabilizando os ganhos... Porque é fácil viver com horizontes de possibilidades grandiosas. Elas realmente acontecerão, mas ainda não chegou o trem. E eu vou e vou mesmo assim. De primeira pessoa. De cabeça bem levantada fazendo com que muitos abaixem a imaginação. Baixem a guarda. Guardam volumes enquanto eu brinco de palavras cruzadas. Signos que codificam a realidade. Que é minha. Ah! Minha realidade. Azul. Abraço para ti. Abraço-te. De firme. E em meu firmamento, onde as coisas e as coisas das pessoas dançam. Faltar com a linearidade não é questão de perspectiva. É que eu respeito demais. E sinto uma fome que me corrói quase o pescoço. E muda o disco. Cansei. Mas salvas. Viva a vida. Mesmo se o sol não voltar. Pois os sorrisos voltarão. Indeléveis que só eles. Todo um futuro de presente. Fim da impossibilidade. Assassinando a resignação. Maio 3, 2005
VAGAS DO PASSADO
Se o marido a deixasse, se o amante a amasse. Egofagia para viver. Sem muito luxo ou fama. Só o prazer sem felicidade. O trabalho para enobrecer. O gozo. Havia uma árvore cheia de maçãs. E um vermelho de envergonhar. Precisava morrer um pouco para entender o que diziam as profecias. E queria se libertar. É fácil fazer rimas com o verbo. Ela tinha um grande verbo dentro de si. E quando o vermelho manchava a sua alvorada, gemia sozinha. Ajustar os graves e os agudos não era tarefa para ela. Que gostava de ouvir como ninguém. Mas a incomodava a polifonia de tons tão cor de rosa inebriante.
Mordeu a tangerina. Chupou o sumo. Tinha sido santa certa feita. Tinha até pedestal para ela e um manto branco escondendo as maçãs eriçadas e, alguns diziam, rijas. Olhava cheia de calor mostrando todo o branco da sua indiferença. Mas dentro tinha mais que verbo. Tinha uma explosão de halo crispando sua memória, lembrando. Os anos voavam sobre suas dores de saudade. E ela queria contar. A perversão dos seus olhos secos foi percebida por outros olhos doutores que quiseram domesticá-la. Ao ensinar pela dor, os olhos doutores roubavam com sacanagem gentil a meninice que escrevia conto de fadas. Pois o que perverte inverte o desejo. E ensina a doer de pulsar. Se o marido a amasse, se o amante a beijasse. Tudo o que nada acontecia. Era caminho para aprender a aprender. Era sem luxo e sem fama, mas árvores de crueldade e esquecimento. Que vira e mexe teimavam em lembrar que o cruel também existe quando geme. Que a saudade insiste quando goza. Que o pensamento vacila quando o passado encolhe o tempo do real onde o imaginário ainda dança. Abril 29, 2005
FELICIDADE
Hoje eu fechei a janela pois a luz me causava dor. Tenho preguiça do lixo. Odeio o que não quer dizer. Faroletes de uma vida sonsa. Há muitos infernos alheios que eu não quero provar. Não venha querer me contaminar com o teu abismo. Por que me chama? Que tal esquecer da minha existência? Ah, quanta virulência. Pára de fingir. Eu quero do fundo mais sangue. Eu quero da vida mais viva. Prefiro me retirar. Não agüento essa hipocrisia. Essa máscara rotunda que vislumbra em mim qualquer coisa. Tua falta do que fazer. Falseia personalidade. Projeta um eu de mim que não existe. Pára de me tratar além. Eu nunca fui rainha. Respeita meu espaço que existe no meu silêncio. Não sou justificativa. Para saber apreciar o profundo de um carinho, sente a falta do que me escorreu em orvalho um dia. O que acontecia em festa e era feliz. O que sorria inocente antes de bater na tua testa fétida por idéias ocas. Toca o meu instrumento. Lembra como é me fazer sorrir a conta-gotas. E então escolha no armário a grandeza mais bonita, vista, e venha contar pra mim. Abril 26, 2005
A TAL DA CORRENTE LITERÁRIA
Fui acorrentada por um -- amigo -- e confesso que torci o bico ao perceber do que se tratava. Mas ao lê-lo, achei interessante. Pois é bacana ver os gostos de quem possui textos que admiramos, ou no limite, gostamos de ler. Havia uma dezena de pessoas a quem eu gostaria de enviar isso aqui, só para saber sobre o que elas gostam. Mas, enfim, fica aí a indicação.
1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro querias ser? Não entendi se devo querer ser um livro para ser queimado ou se para ser imortalizado. Sendo assim, escolho a alternativa que mais me apetece. Queria ser "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres" da Clarice Lispector. É o paradoxo do paradoxo que remete à normalidade. É o complexo do que é simples e a gente não enxerga. É a organização do caos. A metafísica por lábios silenciosos e tão bonitos, medrosos e tão corajosos. Não obedece a padrões, a personagem principal é tão confusa e tão madura. É a poesia que é prosa. É o tudo que se tem dentro. É a leitura que não pode ser feita sem estar em sintonia com o pensamento do autor porque, caso contrário, corre-se o risco de perder alguma vírgula e destoar toda a respiração. Independente do momento que eu esteja passando sei que posso lê-lo e me encontrar ali. "É que não quero ser platônica em relação a mim mesma. Sou profundamente derrotada pelo mundo em que vivo. Separei-me só por uns tempos por causa da minha derrota e por sentir que os outros também eram derrotados. Então fechei-me numa individualização que se eu não tomasse cuidado poderia se transformar em solidão histérica ou contemplativa." 2. Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção? Por vários. Mas isso não é resposta. Na verdade, eu queria saber qual a definição para "apanhadinho". Mas, vamos lá. Um dos personagens que mais me deixou besta e consumida foi o Percival, À Mão Esquerda - Fausto Wolff. É a vontade de ser ele, de bater nele, de brigar com ele, de viver com ele. 3. Qual foi o último livro que compraste? As Cores da Infâmia, do Albert Cossery - único livro publicado em português desse autor egípcio que vale muito a pena - e Ecce Homo, do Nietszche. 4. Que livros estás a ler? O Complexo de Portnoy, Philip Roth 5. Quais os cinco livros que levarias para uma ilha deserta? Sacanagem, mas vamos lá: 1 - Amor nos Tempos do Cólera - Gabriel García Márquez 2 - Tio Vania - Anton Tchekhov 3 - Esperando Godot - Samuel Beckett 4 - Dom Casmurro - Machado de Assis 5 - Ficções do Interlúdio - Fernando Pessoa com todos os heterônimos. 6. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê? * ao querido Ferdinand Vives, que tem um dos textos mais limpos, diretos, criativos, inteligentes e irônicos que conheço. Sorry Periferia , mas quando ele virar colunista, sou uma das pessoas que engrossarão o coro e que o lerão assiduamente, ansiosamente. * à Noêmia que, quando deixa a alma correr livre pela sua Margem da Palavra, escorre tangenciando Gabriel García Márquez. * ao amigo do Cartaz Amarelo, refúgio na literatura de um moço letrado no ofício jornalístico. Não imaginava que havia tanto lirismo na prosa desse rapaz. * e, claro, faço referência ao Dani e a sua Teoria do Conceito, que me fez responder a uma corrente, coisa que definitivamente não tenho o costume, mas por ele, vale a pena. Abril 18, 2005
RELÓGIO DE ÁGUA DA VIDA FÁCIL
São tantas as pessoas que mudam tanto e eu querendo ver qual é a grande mudança. O tempo não passa nem rápido nem devagar. E elas insistem na transmutação. Vários algos que elas não são. Se esta é uma crítica à humanidade, que enfadonha crítica à humanidade. Ao pequeno universo que conheço. Quando falo de humanidade, falo das caras conhecidas, mesmo que só de vista, mesmo que só de olá. O gosto do meu café com leite não é o mesmo. Há pouco tempo o aroma era de casa. Hoje, sinto descer por mim o metal. Como o metal experimentado por um vegetariano ao comer carne sem querer. E são tantos os não quereres. São tantas as promessas de vida. E tão pouco vividas. Porque o ócio é maravilhoso, e a atividade burra só emburrece cada vez mais. O fazer pelo fazer, o fazer escravizado também. Se fosse fácil viver, não estaríamos aqui. Mas é fácil viver. Porque juntando cada palavra, quase sem sentido, eu conseguia ver alguma forma de inspiração. Nesses dias que fazem calor estou sem a grande inspiração. O grande motor que vira e mexe me impulsionava. Porque se fosse para escrever baboseiras autobiográficas, eu não estaria mais aqui. Fica a dúvida. Acho que sei bem das minhas razões. O deus que emana de mim e de você, que preenche o plasma, me embebeda no grande éter. Me sinto fazer parte do grande desconhecido. Mas ainda não conheci a mim, por isso essa de coçar a cabeça e não saber qual caminho escolher. Porque nunca fui máquina para trabalhar sem razão. Eu nunca me aceitei como parte da engrenagem. Logo eu, que faço parte do grande éter...
Antes eu me perguntava muito. O valor das coisas. Queria saber. E tinha medos. Poucos medos, como das noites para trabalhar. Mas eu nunca fui parte da engrenagem. Eu sempre fiquei parada na minha esquina. E era sempre uma esquina. Tantos animais selvagens. Descobri o lado selvagem da humanidade assim. Eu me recusava a trabalhar. Pois não é fácil a vida que se leva. Embora seja fácil viver. Eu ainda não me acostumei com corpos estranhos dentro de mim. Mas só assim para conseguir continuar fazendo parte do que em mim já se quebrou. Hoje em dia eu não tenho feito muitas perguntas, pois tenho sentido pouco. Não que tenha sentido muito algum dia. Sempre bebi para não sentir. Bebia e parava na esquina, esperava alguém parar. Sempre alguém me tomava e fingia querer me cuidar. Mas dizer sempre e nunca é a mesma coisa. O que separa o sempre do nunca? As cores berrantes dos meus vestidos curtos. Por isso que eu bebia e cada vez mais. Para entender que queriam cuidar de mim. Pois minha família nunca aceitaria, e eu tinha uma filha para criar. Eu sinto que as pessoas mudam muito. Quando chegam de um casamento falido, ou de outros sucessos. Faço parte da grande idéia, e nunca me importei em cobrar para que tivessem uma parte de mim. Ainda que soubesse e saiba que o que havia em mim já se quebrou. A vida ainda é fácil de ser vivida. Mas o tempo não há de dizer se ainda há muito de vida do que restou. Abril 15, 2005
ELE, QUE CORRE E JOGA BOLA
Ai que neste texto emotivo era para constar um agradecimento prévio.
Um prévio agradecimento pois ainda não sou nem um décimo do que eu posso ser, nem outro décimo do que realmente serei. Ai, porque na verdade este texto é um texto piegas para dizer obrigado a quem não teria o mesmo valor não fossem tantas as brigas, não fossem as recordações, como quando ele mandou meus amigos pra fora da nossa casa. Eu chorei e ri de nervoso. Porque eu dou risada quando estou nervosa, mas eu tinha mesmo era um medo de que ele viesse me bater com a cinta. Ai, que medo daquela cinta eu tinha, e quando ele mordia a língua de raiva por alguma malcriação que eu fazia. Eu não sabia se eu chorava ou se eu ria. Ele me levava para passear no parque, mesmo quando me perdia. Hoje, ele corre sozinho, em outro parque, mas é o mesmo pensamento que lhe envio todos os dias ao lembrar que é de manhã, e ele deve estar correndo no parque. Porque tinha presente quando eu fazia inalação. Tinha brinquedo quando demasiadamente pela minha saúde eu sofria. É porque durante esses dias eu não andava bem da tal saúde, e andei pensando na vida. E tantas vezes com vontade de chorar. E, de repente, ao conversar, tudo ficou mais tranqüilo, eu fiquei mais feliz, e procurei alguma forma de concretizar. Entender tudo o que realmente existe, como todos os problemas e todas as felicidades. Tantas formas diferentes de pensar. E, nem por isso, uma errada anula uma certa. E, nem por isso, eu consegui entender alguma coisa. Foi ao conversar que eu percebi como é importante a sua figura em minha vida, suas pequenas brincadeiras, que me transformam na grande geniosa que sou. Porque, na verdade, sou como ele, fruto dele. Milimetricamente todas as suas neuroses e felicidades. De seus pequenos questionamentos e grandes dúvidas que ainda permanecem. Porque esse texto não quer nada além de ser um texto bobinho, mas verdadeiro. E eu não quero me explicar através de paradigmas ou pára-raios. Pois mesmo sem a menor inspiração, eu respiro o que o porto seguro dele me traz - porque a cada dia como o dia que passou eu ratifico o quanto o amo - como ele é da minha essência a parte inexpugnável. E porque há algum tempo eu tentava não me justificar nem ser adolescente por aqui. Também porque tenho algumas poucas certezas nessa vida. Mas segura numa vírgula para dizer que tenho um bonito farol no meu horizonte quando me lembro do seu amor. - Current Soundtrack - - ou - - Para ler ouvindo - Marx and Engels - Belle and Sebastian Cecilia - Paul Simon e Art Garfunkel Abril 5, 2005
MAUSOLÉU
"Não sou eu que estou louca e perdida como você" Da linha reta, fizera a curva, e achava normal. Do sorriso limpo, fizera o triste, e achava normal. Do doce quente, fizeram calor, e o dia já não era o mesmo. O dia que às vezes amanhecia chuvoso também ensolarava, e vice-versa. Inconstante era o humor. Era uma mulher sozinha e gorda, já quase vivendo setenta espaços de tempo em que muito tempo havia passado. Cabelinhos quase brancos ajeitados num penteado singelo, de coque bem feminino.
Bonitinha velhinha, mulher tão recolhida naquele corpo que ficava menor conforme seu cuco cantava. Passava o dia em sua cadeira, que confortável cadeira, que não balançava, a não ser quando a própria mulher a inclinava a 45 graus, aproximadamente, em relação ao piso de madeira carcomida por sorrisos e desesperos que um dia circularam por lá. Não circulavam mais. A velha mastigava fumo, meio mais eficaz de levar ao sangue algumas pequenas sensações que ainda podiam deixá-la feliz. Feliz não era mais um estado de espírito, como falavam seus amigos na época em que ela ainda sabia viver do lado de fora. Feliz era a sensação produzida, por exemplo, pelo fumo mascado e logo cuspido. Pela solução de homeopatias que já surtiam efeito e a levavam para um sono diariamente tranqüilo. Se havia algo bonito, e realmente bonito, eram as manhãs em que, após lavar suas vergonhas e seus dentes ainda bem conservados, ela pairava fronte à parede amarelinha como uma pomba na praça de Santa Rita de Cássia, reduto das tais aves, as mais espertas da cidade pois jamais passavam fome, espertas que eram ao se aproximar dos fiéis logo ao final das missas. A velha descansava a imaginação quando docemente encarava a parede acolhedora de retratos nem tão antigos de rostos, que em algum espaço de tempo diferente daquele, haviam sido quase goma de mascar, quase fumo entorpecente apenas pela delícia de ser etéreo ou ser fumaça. Quase. E anestesiava os pensamentos assim, pois ultimamente seus sonhos não lhe davam sossego.
Senil e cansada, não podia sofrer emoções ou qualquer tipo de palpitação que lembrasse o sopro quase brisa que lhe tocava de vez em quando. Há poucos dias, percebera que, munindo-se de um ritual, as mudanças poderiam desaparecer por completo. Com a mesma pressa pela qual deu as contas e os créditos e o adeus à enfermeira que a acompanhava durante anos. Dispensável era a presença de alguém subserviente. Embora precisasse se despir dos surtos, ainda mantinha intacta em seu pequeno mausoléu a personalidade carrancuda e inabitável que anos a fio cuidou com afinco. Cuidados sempre renovados com as mãos desesperadamente limpas, tão asseada que era, dentre tantos os tantos que permeavam a entidade do mausoléu. Podia ser no meio de uma conversa, no meio de um pensamento ou no meio dos poucos coitos bem sucedidos que tivera, ela parava o instante e o tempo, frisando a sensação, para imergir à bacia mais próxima e recolher suas pequenas mãos macias num banho renovador e espiritual. Só assim para prosseguir com qualquer outra razão de sua existência ausentando-se da culpa ou da imundice, razões nunca mais importantes que o sentir-se alva através das mãos que conheceram diversas texturas, muitos caminhos, ares diferentes. Mãos que sabiam da limpeza e da covardia que começavam ali, por elas. E cada parte do corpo daquela que agora repousava velha tinha uma autonomia exemplar. Cada interlúdio de pele era a própria vontade de permanecer inerte, era o agir movido pelo desejo hermeticamente petrificado à razão. Razão que ela questionava durante os minutos em que olhava os pequenos quadros distribuídos em harmonia pela parede amarela. Achava que a loucura poderia ser parte autônoma dela também. Mas algo nobre, mais nobre do que qualquer outra nesga do abrigo corcundo que zelava pelo charme que a velhice dela agora proporcionava. Charme romanceado pelo o que não se sabe sobre o tudo que se passou. Como o seu nunca amor, ou seu nunca sentir além. Como o seu prolongado torpor, esperando o que mais a vida poderia lhe apresentar à medida que seus passos fossem ficando para trás. E não apresentou. O olhar sempre curioso, curioso, curioso. Que passou, a vida que passou. E do mausoléu onde ela própria se guardou diante de qualquer movimento diferente, qualquer emoção que, agora, não podia mais escolher, absolutamente, não podia mais sentir. O preço do sentir seria a morte, não do seu corpo levemente curvado com o encanto de uma vida, para os outros, desconhecida. O preço do sentir, e agora, seria a morte da crença de que sua vida não se esvaia em vão. E ela, ela não podia mais com nenhum arroubo. Não queria. Não sabia se acharia o caminho ou se perderia a loucura que devagar já roía as pontas de seus pés, mas olhava a parede, preferia a sua cadeira sozinha ao fim do mausoléu. - Current Soundtrack - The End - The Doors Scarborough Fair - Simon e Garfunkel Março 25, 2005
OS MUNDOS
Minha casa sempre foi cheia de doces e eu gostava muito de chiclete. Podia ser qualquer sabor, desde que a cor da goma fosse vermelha. Eu comprava um punhado com o tio da padaria, mas meu pai não podia saber. Meu pai, ele sempre foi bonzinho. Eu gostava dele. Só ficava triste quando colava os meus dedos. Doía e eu chorava. Não na hora em que ele colocava com cuidado o superbonder, mas quando chegava a hora de descolar. Porque vinha minha mãe com água fervendo, aquela água que fervia dentro da caneca cinza e espelhada, só assim.
Naquela época eu chamava dedos de dedinhos. E meus dedinhos eram enrugados. Não sei se pelo tanto de água quente que vi escorrer por mim ou se porque eu sempre teimei em envelhecer. Mas eu não era velha. Nem eu, nem meu pai. E ele não ficava nervoso. Se algo o aborrecia, logo encontrava meio para extravasar. Acho que por isso ele colava os meus dedinhos. Devia achar que dessa maneira ficaria difícil de eu me expressar, contar o dinheiro para a padaria ou escrever os poemas que para ele eu sempre escrevia. Ele colava, mas nunca lembrava que teria a mamãe para descolar. Me pergunto se ele acreditava que meus dedos ficariam colados para sempre. Porque papai sempre gostou de imaginar. Acho que por isso não envelhecia. Tinha um sorriso tão branquinho e usava dele quando queria me fazer um agrado. Abria a boca e deixava escapar aqueles dentes que me tocavam o coração. Bem devagar, seus olhos também falavam pelo o que sorria. Eu era feliz quando tinha doces e o sorriso de papai. Mamãe ficava em vigília, esperando a cabeça dele começar a imaginar. Mas nem sempre era assim. E eu não me importava também. Sempre eu podia fugir para o meu quarto. Fechar a porta e encontrar tudo aquilo que eu escondia. Meus doces que papai não conhecia. ![]() Março 18, 2005
CATAMÊNIO
O dia era amarelo, a vida era a mesma. Pessoas preocupadas com preocupações diferentes. Ocupadas, mas nem tanto. A música não tocava a todos. A mulher não conseguiria mais amar. Mas tentaria. Procurando rostos nas esquinas e pedindo desculpa ao esbarrar. Se ao lembrar de um amor sua capacidade de amar fosse maior, ela não caberia em si. Era um útero que doía. Mas pediria mais uma bebida e saberia que amar não era tão difícil assim. Havia um problema. A falsa sensação de euforia que não era correspondida por quem não a bebia. Quando ela era apenas tragada, seus efeitos eram lentos, quase imperceptíveis. Gostava mesmo de ser injetada em doses que ardiam devagar. Mesmo que quase impossível, ela queria a infusão. As palavras ligeiramente atordoadas na ampola, logo na seringa, prontas para serem ela, injetada em alguma veia desavisada. A mulher sabia que não seria amar. Mas seriam no sangue os efeitos dela sentidos. E o sangue vermelho sempre foi mais romântico do que um solavanco de susto quando o ar penetrava os ventrículos expandindo ar do coração. Sopro para assoviar uma música fácil, sem acordar os acordes fáceis. O dia era amarelo, o dia era besta. A mulher gostava de cantar enquanto a música ecoava com efeitos e ela tomava alguma pílula que a deixasse acordada pelo menos alguns minutos a mais. Para não perder a vida se a vida era tão besta, ela queria ficar acordada e viver. Tirar os calos das mãos e se embriagar. A vida besta era fácil quando sorrisos. E os sorrisos eram fáceis quando sintetizados na capsulazinha branca e azul, sua perdição. A tentação era olhá-las quase com amor, mas a mulher não podia amar. Enganava a possibilidade de ser outros palcos no palco dela mesma. E mesmo sem sentir, poder saber o que é interpretar o sentimento e assim senti-lo. De amarelo, quase o dia ficava chuvoso para o cinza. Ela lembrava de tantos rostos que nunca poderiam ser a seringa. Ela era toda uma combustão de componentes absolutamente químicos que amainavam a dor e mentiam para as paredes coloridas de sua casa vazia. A mulher era cabeça e tronco, com dois braços e duas pernas. Tinha cabelo também. Era um simples nada e um quase tudo simples. Via e vivia quando o dia era amarelo ou azul. A noite bela ou cheia de trovão. Não entendia muito o que podia, mesmo quando sentia algo que existia. Respirava querendo a injeção ou querendo ser a injeção. Não chorava, mas sorria. Ela olhava e não sentia, não conhecia o verbo esperar. Repetia. O nada. E a noite vinha caindo todo dia. Ela olhava a janela e alguma coisa ela entendia. Era simples mesmo quando faltava luz. E o garoto que a olhava pensando que ela não o via. Despindo-a com a intenção até os limites que a janela permitia. Mas não os de seus olhos de homem que um dia ela sabe que desejaria. Ela queria ser a agulha na veia que despeja o líquido incolor. Depois, depois na casa de paredes coloridas festeja. Ria. Era mulher que vivia de sopros de susto no coração quando tinha sangue todos os meses que passaram de sua vida. Dias irregulares em que, como não chorava, chorava sem explicação. Março 12, 2005
MAIS UM DIA
Eu corria e não entendia nada. Atrás de mim vinha aquela multidão. Eu tinha um medo daquelas pessoas e uma coceira começava a azucrinar meus braços. Ai, que nervoso. Eu ainda fumava e não havia nenhum cigarro perto das minhas mãos. Elas me coçavam, coçavam meus braços. A urticária quase me fez esquecer do porquê eu corria.
Entrei no prédio para despistar toda aquela gente. A vizinha gorda cantava sem parar. Ela sempre usava um vestido de cotton, mas variava de vez em quando a cor. A filha dela estava grávida. Quatorze anos de vida, a menina. E a gorda cantava um rock que cantava francês. Mas em casa eu estava protegida da massa que me seguia. Eu ainda fumava, mas não tinha nenhum cigarro perto de minhas mãos. Pra que viver? Meus dentes doem e doíam. Aqueles dias não faziam sentido. Não porque eu queria parar de fumar ou porque a gorda não parava com a cantoria. Mas toda aquela gente me seguindo, todo aquele barulho... Ninguém falava nada, bando de carcamanos tolos que um dia eu julguei conhecer. Eles me conheciam e corriam mais do que eu. Minha resistência nunca foi resistente. Eu ia ao supermercado e ao fim das compras precisava me sentar para não cair desmaiada. Era cansaço. Bonitinhos os rapazes do mercado. Era o momento em que eu voltava a ter contato com o mundo. Sentada, descansando, conversando com eles, que tentavam me fazer sentir melhor. Mas eu não tinha história nem a história e por isso eu podia chorar... Coisa de menininha. Sempre fui assim. E piorei quando passei a me lembrar daquele bandido que me deixou na rua da amargura. Depois dele, aquela multidão não parava de me seguir. Porque é aquela coisa de não saber lidar com a liberdade que se tem. Eu nunca soube. Embora sempre tenha sido livre. A não ser quando o maldito ameaçava me estapear. Eu tinha medo. Aquela mão podia me ferir. Não só as mãos... As palavras. E as palavras? Não. Ele não me xingava. Mas era um jeito de falar jorrando olhos que fingiam não me ver ao mesmo tempo em que me desprezavam. Me liquefazia e me deixava espalhada pelo chão, inteira e sozinha. Não guardava para si nem uma gota do que era meu. E era assim desde o bom dia. Ai, Deus do céu, por vezes eu preferi um tapa na cara a uma palavra daquelas. Como eu poderia não reclamar? Na pele, a cicatrização era muito mais rápida. Eu sempre fui fraca e o que me doía por dentro era difícil de achar. E enquanto se escondia, a dor continuava a me apodrecer. Apodrecia mesmo. Até que alguém achava o que doía. Eu ainda fumava e quando não tinha cigarro ao alcance de minhas mãos eu andava. Não, eu não vou falar que corria só para rimar. Ai, eu nunca gostei dessa coisa certinha. Às vezes, eu falava que gostava, mas era mentira. Eu precisava falar porque não agüentava argumentar durante horas sobre o porquê da minha aversão a Goethe. Nem dou conta mais de mim com esse calor que quase me sufoca. E eu tenho um problema de sudorese. Não é nada gritante, mas incomoda porque parece manter o calor do inferno que queima o meu corpo. Olha lá... daqui a pouco vem a vertigem. Pois a gorda não parava de cantar e eu não identificava o acorde jocoso que não mudava nunca. Um samba, um bolero, era rock de uma nota só. Eu não entendia os dias e decidi parar de fumar. O dinheiro já acabava e eu não teria mais como me explicar. Aquele povo todo me esperava do outro lado da rua. Eles sabiam que eu morava lá e sabiam também que eu não mais entendia a vida. Era uma mistura de corpos e cabeças que um dia fizeram parte do que é de dentro de mim. E agora todos eles juravam vingança. Todos, não. É que eu nunca soube a diferente entre o exagero e a mentira. Alguns tinham apenas me prometido amor eterno e me seguiam cobrando amor igual. Outros só queriam liberdade. A minoria, e só a minoria, queria vingança mesmo. Nenhum deles tinha a mesma face, mas todos me conheciam bem. Eu já não entendia a vida e jurava que queria fugir. Acendi um cigarro e rezei para alguma das Virgens Maria, enquanto a gorda da vizinha chorava porque o leite havia derramado. A multidão continuava a me esperar. Lembrei que alguns deles eu ainda não conhecia. Entreguei meu corpo às orações e fui me deitar. A vida era fácil nessa hora. Os dez passos que separavam a sala do quarto. A cantoria, o choro, a parede da minha vida. Eu não podia fazer nada. Não podia. Aquela era minha única vida. Março 5, 2005
CARTA AVISA QUE ESTÁ TUDO BEM E QUE SOMOS FELIZES*
Eram quase duas da manhã. Era feliz por muita coisa e triste por muito poucas. Queria escrever, pois essa música aí, essa musica é foda. O teclado não tem acentuação. Um medo danado de derrubar o cinzeiro. Tudo está tão escuro, que só algumas letras a brilhar querendo dizer. Passam pela retina e gritam. Dizendo ela teve que voltar. Era a letra da música que cantava e as palavras escritas não diziam nada. Eu misturo os tempos, eu misturo os verbos também.
Palavra bonita essa, prolixa, não? Porque para dizer que está amando, ou sentindo alguma coisa, ela, a palavra, vai até a casa do chapéu, falando que suas unhas cresceram, seu cabelo encurtou, que a lua queimava no momento em que escrevia. Ou tudo para tentar verbalizar que, às vezes, a gente se engana. Não por culpa. Mas pelo acaso de algumas perspectivas que nos frustram. Ai, ser mutante e maçante, que não encontra nem um cedilha nesse escuro que está na sala escura. E a lua que ilumina tudo. Continua. Efêmero. É o dia que passa sem ter quem possa vivê-lo. Não precisa ter sentido se aquilo que é sentido é o que realmente tenciona. Tenciona o que se quer, no que se precisa e o que se imagina. Tenciona o que se sonha. Eu não preciso de tratados ou paradigmas para dizer que tenho a grande coisa. Um paradoxo, como todos os demais que nesta sala escura e vazia se apresentam. Olá, eu me ouvi dizer, a qualquer momento eu posso me assustar. E alguém, de sopetão, também pode levantar. É que a música está muito alta aqui a pulsar, somente e dentro de mim.
Eu li tanto esses dias e estou meio catatônica. Essa era a intenção. Vamos refletir juntos. Meninos são meninos. Meninas também o são. O que são? Ai, massa subjetiva que se apresenta e sorri. Pois eu tinha que falar sobre o sorrir. E sobre o medo de toda essa bobagem se apagar. É muito escuro, e eu posso apertar o botão. Aí, aí não tem mais jeito. É como se nunca tivesse existido. A não ser pelo desconforto momentâneo da perda. Aquele momento quando acaba de acontecer. Quase gozar do demônio. Mas deixa isso pra lá. Já perdi e já ganhei tanta coisa que me sinto mal quando falo que apago mesmo algumas palavras. É esse fluxo idiota de idéias que precisa descansar. Movo o cursor, coisa mais moderna - segundo o bem entender de meus dedos. É como se minhas palavras agora sentissem meus dedos. Não sendo bastante, vão aonde eles querem. E latejam. Palavras que vibram com o sangue que corre. Eu apago essa fumaça e canto a madrugada. Que acordem os vizinhos, que eles possam ouvir a minha voz. Ela ecoa aqui dentro. De dentro. Ou sussurra. Eu apago esse cigarro. Forte esse cigarro. Acendi outro cigarro. Lembrei que amo tanta gente.
Só um momento que preciso salvar. Eu preciso me salvar. Ou apenas salvar o texto. Pequeno e confuso e, diferente do resto que apago, ele não pode se perder por ai. E vocês, minhas crianças, como eu. Estou bem. E vocês, vocês não se podem perder por ai muito menos. Mas eu, saibam que não os perco, encontro-lhes sempre, sempre cá dentro de mim. Mandem lembranças a todos. Mesmo enquanto a lua não mais iluminar nada. E só restar sol para alumiar o que é substantivo de vocês. - Current Soundtrack - Dissident - Pearl Jam *escrita durante período de exílio na terra onde vivia também Arturo Bandini. Março 3, 2005
INTERLÚDIO
A voz cristalina conhecida. Um colírio, calmante. Por noites consecutivas conseguia dormir. Não via histórias, não sonhava.
Desinteressante. O céu nublado nublava a vontade. Ruas de Londres, melancolia. Quase outono, ainda inverno. Copulava. Infértil. Viver era respirar. Sem ação, perceber. Sem sentir, esperar. Conseguir. Consegue perceber a catástrofe do vazio. - Current Soundtrack - Stay with me - UK Mission Fevereiro 28, 2005
DESCULPA-ME
Porque o sol é tão forte e eu preciso. Uma saudade que permeia a vontade. Eu bebo e gasto esse resto de respiro. Naquilo. É o aquilo que me agrada. Eu torro o dinheiro. Eu leio o livro. Eu não me preocupo com essa mesquinhez vã. Eu dou risada e comento. Será que vão entender? Eu não devo nada. Será que vão aceitar? Eu não tenho nada. E farei. O que desejar. No quando eu sugerir. Porque o sol é tão forte. E eu. Não preciso de receita. Porque esse sorriso que se apresenta, senhoras e senhores, é fiel retrato da liberdade. De um berço esplêndido, de minhas mãos, que velhas mãos. E grita. Minha liberdade. E chora. Contente de si. Ela é minha. Só minha. Nada de lua, estrela ou gracinhas juvenis. Minha única vontade pulsa. E sente. Piedade. - Current Soundtrack - California Stars - Wilco Fevereiro 14, 2005
SOBRE SALTO
Tinha uma mania de fazer forte a quem lhe rodeava.
Embebedava. Enternecia. Era uma mania de se conformar em ser efêmera. De existir num tempo controlado. Mas continuar a escorrer. O prazo de validade, seguido com respeito, mesmo desconhecido. Pois arriscar era o risco de fazer perecer o outro. Era quase Madalena quem falava quando respondia por si. E encontrava dó. O sol era de um crepúsculo que anunciava. Ouvindo música que, ai, lhe levava a sobressaltos de pequenas batidas de coração. Finito é o teu coração, teimava em acreditar. E teimar era verbo já abusado. Transcorria de uma fortaleza que ela não tinha. Madalena teimava. Queria ouvir dizer que era menos efêmera do que o rio que sentia lhe rasgar de surpresa pelo imprevisto gelado. E já passava. Era inverno. Mas havia pequenos riscos de cor lilás dentro do que a ruborizava. Era uma vergonha quente por criar personagens zangados dentro da comédia. Como ainda não sabia escrever, rascunhava. Não se preocupava com a falta de enredo. Diversa era a caracterização dos personagens que volviam a apenas um. Esquecia que havia contágios de maneiras diferentes. Que um olhar transbordando bem querer não negava contagiar. Madalena queria tergiversar.
Ela, Madalena. Só queria bem querer. E não sabia bem como escrever aquela história. Era quase juvenil quando pensava ser gerúndio e particípio. Esquecia que tinha nos braços de agora o sumo dos rabiscos que ela já não sabia encadear. Presente, e de susto, pretérito. Madalena. Ia embora. Uma boneca agridoce. Madalena era efêmera. Ria. E logo deixava o rio passar. - Current Soundtrack - Sometimes you can't make it on your own - U2 Fevereiro 9, 2005
METALINGUANDO
É quando do copo uma gota d'água que iria para a boca escorre pelo queixo, caindo entre os seios, que a história começa. Refresca a alma. Aquela gota penetra no mais fundo, que é, sim, o olhar dela. Como se fosse um conto, rápido e certeiro, a sensação dura algumas páginas de curiosidade e desejo. Como uma gota, arrepia o pescoço e a vida. Dele. A gota penetra no horizonte entre os seios e, descendo, encontra morada mais quente. Mostra o horizonte que reflete na água e traz ainda mais vida no seio da menina. Cospe arrepiado.
Arrepiada, ela olha para ele, e a gota escorre de felicidade. Toca devagar a tentar e tenta e tenta enxugar. O que era uma gota de apenas distração vira agora mais que um quase amor. Se ele fumasse, fumaria. Se ela amasse, amaria. E a gota continua descendo, esperando o campo fecundo de mais uma noite bem vivida. A madrugada é cantada e, de repente, a gota vira a música que pulsa, pulsa, pulsa, pulsa. A água quase evapora não fossem tantas outras gotas que não caem, mas saem deseperadas do corpo tensionado. E num sorriso de menino, ela grita de arrepio pelo arrepio que a gota causou. Antes caíra, agora apenas invade. Silencia a boca dele e enche. De tanto falar de corpo. E o cheiro.
Ela espalha o espírito dele. Ele a leva para casa. Já molhada. Desarrumada. Ela enterra. Ele ama. Felizes. Aquilo parece casa.
Eles não moram juntos. Mas bebem do mesmo copo. - Current Soundtrack - Big Yellow Cab - Counting Crows Fevereiro 7, 2005
ACENTO
Quem sabe nao encontro Arturo Bandini por ai. Ou pode ser so Cary Grant.
"Tap on my window knock on my door I want to make you feel beautiful I know I tend to get so insecure It doesn't matter anymore" Janeiro 27, 2005
MÃOS SOB O AMANHECER
Me leva contigo. Porque eu sei ficar quieta. É esse jeitinho meu que te engana, mas você pode me levar. Eu sonho e eu sei me virar. Eu canto. Eu não agüento essa eternidade que é ficar.
Algumas vezes eu choro. Mas outras eu sorrio. E você pode ver o meu sorriso. Por isso seria bom me levar. Porque quando sonhasse eu riria. Pois seu sonho era úmido e era comigo. E refletido no que sorria, você me contaria que feliz muito mais feliz seria ao me ver a sua poesia. Me leva contigo. Porque eu acendo um cigarro e fico quieta. É essa mania de querer botar um medo no banco de trás junto com a roupa que usamos para ir à festa, mas que nunca vestimos para olhar quem festeja. É essa dor de arder numa ilha bonita e calada que me faz dizer o que eu não queria. Falo. Por isso você deveria me levar. Porque eu falaria sobre o que você nunca enxerga mas sabe que é bonito. Eu te diria que a sua casa é aquela ilha e então você lá deixaria sua gentileza sua beleza sua mobília. Você disse que era melhor me levar. E, ao acreditar, as malas eu fiz. Coloquei meu olhar e meu moleton. Vesti minha bagagem a te acompanhar. E quem me adentra e acompanha de repente é você. E eu não sei te guiar. É melhor eu ficar. Você pensa que não é pra você e eu uso terceira pessoa. Eu encosto na chama que me queima de horror e vida. Você me olha como se não me visse. E então me deseja e vai. E quer me levar. A ilha é pequena. E meu mundo é de menina. É melhor eu ficar. - Current Soundtrack - "Once I had a girl, or should I say, she once had me" - Norwegian Wood "And I am fascinated by the spiritual man. I am humbled by his humble nature. (...) I like to reel it in and then spit it out. I'm frustrated by your apathy." - All I Really Want Janeiro 24, 2005
SENTE TANTO VIVER
ou Sabe Mentir -a- Vontade Era inteira. Não se importava quando não amava. Vivia. Bonita a pequena. Era o tempo de deixar escorrer aquele ócio. Logo ele passava. Olhei a noite e vi o claro. Que sentir não precisa preencher quando faz sorrir. E sorrir era descobrir qual o momento do especifico olhar que queimava de leveza o calcanhar, incendiando o pescoço, pois o tempo não leva em conta o infinito do corpo.
Dançava. Quietinha para ninguém perceber. Escrevia ficção. Não dormia. Entretanto, era verdadeira. Ouvi a música e apenas deixei vibrar. Era um pouco de imaginação o que eu buscava. Para criar, eu não tinha concreto e não precisava. O abstrato já me tinha tocado enquanto eu dormia. Bolinava. O gelo fez barulho. E foi um susto. Fisicamente o que não se explica transcende para o que dói de estourar respiro, quietinho dentro do pulmão, quando se sente até a própria pulsação. Quente. Que não grita calada, pois é lugar comum. Ela fala, a pulsação. Eu. Quando piscam devagar os olhos de uma mão que encostam no sorriso de um querer bem que basta. O que me basta? conformismo apenas vida só olhar pequeno um todo contido em mim? Eu nunca gostei de diminutivo. Nem de pontuar. Unidade. Não quer verbo para comunicar. Eu te. Eu te. Eu te. Prosa. Verso. Picaretagem. Tensão do não acontecer, mas num esforço de vida, um esforço grande que faz desaparecer o outro para que dele só um destino que eterno continue. Porque é de malvada que às vezes eu sorrio um sorriso. É a minha prepotência que faz, jaz, fazia dar certo o que não tinha sentido. E depois não fala mais em sorrir porque o mistério é o que não sorri, mas chora por dentro de emoção pela vergonha que se tem em se deixar transparecer. Isso não é amor. É só vontade de viver. - Current Sountrack - Carmen (Habanera - Toreador) - Georges Bizet Sinfonia No 9 - Ludwig Van Beethoven Janeiro 18, 2005
TELEFONE
E se parecer profecia? Vamos sair na sexta-feira. Você sabe o quanto me instigam os livros. Coisa tão idiota. Cabeça de menina. Você disse que sou artista? Inquieta. Eu também te amo. Mas não dá. Porque essa inquietação de dentro é mais forte. Essa ruína que tem uma cara bonita e sorri é hipócrita. Tem bochechas rosadas só para esconder o que é pálido de dentro. Mais do que isso: é só normal.
Trazer o menino que me olha de longe enquanto me imagina nua é divertido. Mas daí ele descobre que não é um mistério. E fica tudo mais cinza. Porque dançar no imaginário é mais leve. E preciso. Porque é mais difícil ter essa cabeça que não pára de pensar nunca. E só queria ser mais simples. Igual aquele teu sonho. E se fosse uma profecia? Quantos sonhos em que você puxava meus cabelos, nervoso, porque eu te traía? Eu apenas sorria. O que você não sabia é que eu queria te pagar o teu valor. Ter lastro. Eu queria descobrir que nunca deixei de te amar. Porque eu sairia desse limbo que me rasga. E pensaria em outras coisas. Deixaria que continuasse a me guiar. Porque eu ainda acredito em transcendência. Como o teu veneno que maltratou o meu. Eu conversava contigo até de madrugada e você pedia para dormir. Lembra que eu chorei? Eu sentia que era sozinha. Mas você vinha com um olhar que não me deixava enxergar porto seguro. E não sabia caminhos. Nunca teve pontualidade ou senso de direção. Quase me fez despertar interesse por taxistas ou caminhoneiros. Mas precisou só de alguns segundos de relógio de distância para eu perceber que estava mais protegida por você do que por Deus. E hoje eu sinto, fazer o quê? E vivo pior por isso. Porque eu procuro outros olhos onde eu possa te ver. Encadeamento de clichês. E ninguém é culpado. Porque não há conflito. Existe um medo, diminutivo. Que odeio. E você sempre soube disso. E eu nunca precisei dizer palavra. Vamos lá na sexta. Eu preciso de um tempo e livros. Será que amor é só isso? Condenada nessa espiral que não me liberta. Você não me liberta. E eu sou mais menina. Porque de um nada, toda uma vida eu encontrei e nisso. Não me aconselha. Porque não é com você. E em seguida, não diz que me ama só para não me ver sorrir. Mas eu preciso do teu sorriso. Porque nele ainda mora tudo aquilo o que ainda acredito. - Current Soundtrack - Time - Hootie and the Blowfish Janeiro 17, 2005
PERDÃO
Tirou pedaço da pele da menina. Tão livre a menina. Dançava quase nua. Não sentia culpa. Era sol e era sorriso. Era nua que criava histórias De vida de um olho que fitava Sua cintura larga Seu Índico, Sua música, Sua imaginação que ..... ava. Dentro. Dentro. Ela poderia ser Regina. Não culpava o acaso ou o descaso No qual o acontecimento acontecia. Tirava pedaço da pele da menina. Não, não, não se traía. Queria ..... Rainha fazia. E era mais e ela. Ouvia, gemia, Pedia socorro. Sorria.
Não esperava o crepúsculo para copular. Esperaria. Tarde rosa que quente que arde A primeira vez que sentiu que falo Tremeu. E a febre ..... Lembrou. Quando foi a primeira vez. Agora era ontem. Quando hoje aconteceu. E veio A oração para o perdão De seu corpo Ateu. Mas já não tinha. Tirara pedaço do corpo da menina. ..... Janeiro 13, 2005
DOIS
Olhei, admirei O que não era paisagem
Era eu e eu mesma No corpo de outra alma Que saiu foi passear Sem vírgulas e tropeçar Naquilo que queria dizer. Era um corpo bonito de suspiros dourados Falante do que falo Mas não consigo ver falado Eu te amo eu te amo Cantava o corpo calado. Eu via uma música de cítara E a cantoria incessante Era o olhar velado. Toquei, olhei O corpo que estava amando. Eu me via transparente E coberta por um pano De um medo e de frescuras É o frescor da sua pele Eu prefiro que seja a dele O tecido da loucura Que falava eu te amo Para a minha pequenez De menina alma leve. - Current Soundtrack - Queen Bee - Taj Mahal e Toumani Diabate "She rock me to my soul, oh, she rock me to my soul" Janeiro 10, 2005
É
Fricciona. Expande. Eclode. Pulsiona Dança, quebra, pari, chora Gosta, goza, gasta, Susto Acaba Desvendar o mistério É sonegar ao futuro A chance de uma boca Fruir o todo. - Current soundtrack - Dancing with myself - Billy Idol Janeiro 7, 2005
PONTO ÁRTICO
Porque muitas vezes não é quebrar.
Colocar uma pedra no copo Congelar o que passou E apenas Deixar o gelado que é por dentro Mais dentro do que sente. É criar um frio que humilha, vence. De não sentir frio Toda a vontade que se tem. Porque é difícil ser um afago gelado Por dentro de um nada que existe Igualmente persiste Em não querer existir. Menina quente de olhos vazios Cai numa tarde que cinza que mente Ela dourada num segundo fricção Não admite migalhas De nenhum pobre De nenhum fraco, tentação Porque rica de vida Explode e se faz enxergar Para nunca mais dizer olá E usar o que é eterno Só uma vez na vida Antes de ser para sempre O que para sempre termina. - Current Soundtrack - Plush - Stone Temple Pilots Janeiro 3, 2005
SONS
Preciso do volume alto De uma música que destoa minha percepção. Do que quero e não quero Do meu profundo e atordoado não.
Das negativas que me guiam Quando as nego e não entendo Que a música alta É o sorriso que me faz sorrir O agrado que me faz calar O desejo que me faz fugir Quero a música mais alta Elegante e pouco serena Com vibrações enigmáticas Como a cor que esbanjam meus olhos Ao tocar o corpo De um santo imaginário Que purifica toda a beleza E renova o que é meu cansaço. Quero cordas e percussão A cortejar meu tímpano Com divina malvadeza Surpresa delicadeza De palavras mal colocadas. De um sussurro não dado O doído acorde não cantado A visão de um amanhã Que não dança Mas e ainda assim Acolhe um futuro feliz Numa harmonia de arranjos Paradoxos não conhecidos Mas há muito esperados. Dezembro 31, 2004
PISCINA
Vento venta vence o nada Percorre o corpo brilha ouro Traduz Acorde as barreiras do som Rompe o silêncio Da inocência burra Roe as barras Da veste Nu ance
Detalha a corda que move a vibração Do ar que intercepta a penetração de uma palavra na boca infantil que balbucia fome Recebe afeto de um corpo maduro Completo De um louco são. - Current soundtrack - Clocks - Coldplay Baby - Tropicália "Você... precisa tomar um sorvete, na lanchonete, andar com a gente, me ver de perto. Ouvir... aquela canção do Roberto Você... precisa aprender inglês. Precisa aprender o que eu sei. E o que eu não sei, mas... E o que eu não sei mais." E que feliz ano bom aos queridos que queridos que são. Frequentadores desta casa. Colorida fazem-na. E colorem o que é meu coração. De pieguice, sem medo. É verdadeiro. Como a amizade que por aqui transita. Ósculos. Surrealistas no coração. Dezembro 29, 2004
MUTANTE
A lógica que subtrai lábios É a dor que prende O grito que cala O sorriso que transborda Quando já não há ninguém Para sorrir
A beleza que exprime vida É a palavra não dita Gritada num sopro de lágrima Que transborda de um corpo Coberto de éter Os olhos que caem O sono profundo De uma espera calada Os dedos que dançam O sonho do mundo Num segundo eterno O vermelho que borra É a paz de um coração Que canta o passado de espinho Indelével Doer sozinho Que já foi E não é mais. Dezembro 26, 2004
QUASE FESTA
Olá. Confuso. De repente A escada subir. Da cor da sua boca a criança cresceu. Motivos a levaram Vozes a cantaram A andar e adiante
Olha Diferente não tem vírgulas Gramatical mente Doce é o soletrar que preenche que agonia que acontece do olho que olha a deus Cabeça de menina. destoa, desatina canta a cantoria Caminha caminhos Não advinha O que aconteceu Escondeu A resposta e tanta novidade. Apareceu. - escrivinhado escrivinhei de sopetão um recado que gostei que reescrevo agora: quero os livros mais raros de mãos calejadas. que me tragam a poesia daqueles olhos que conheces bem. um toque de nada, um sopro gelado. e todo sorriso espalhado pela simples razão do que existe e nunca acaba. - Current soundtrack: Hello, Goodbye - Beatles (e com Milton Nascimento também. Intercalando) Dezembro 19, 2004
TARDÍVAGO
De um ócio criativo. De uma paz entardecida. Do som que a palavra incita. Do querer doutra pele maldita. De tempos que passam, acredita Nada é mais importante na vida Que um riso que grita Que a boca não fala, imita Uma felicidade que atordoa e a realidade limita. Diz mais coisas a palavra bem dita Que correndo aquece de sol a pele e dissipa Toda tristeza num poço cheio de nada Uma tristeza que se passa falida.
O pior momento de uma vida É um dia que acaba Sem existir Dezembro 14, 2004
IMAGEM QUE NÃO SE FIXA À RETINA
ou A menina simbolista Forte. De braços e alma. Olha para ela. Ela te desafia. A sombra que se esvai dos passos que são dela é maior que toda a tua vida. Azul. E brilha.
Não peça atenção. E não justifique. Não procure pelo nome. Não acharás tal especiaria. Novamente. Canta apenas as alamedas. Conhecer o mundo. Em riscos de giz. E o infinito de si que ecoa. Numa vereda. Recapitular. Aprender e de novo. Ela é muito maior do que o vazio que te povoa. Não pensa que não. Ela aprendeu assim. E ser assim. Espelha-te nela. Que está muito longe de ti, e não mais. No caminhar que lilás do grito revela. Droga de luzes e pulsão. E vertigem. Não é qualquer um. O manipulador. Ela te vê. Ela te sabe. Ela te lê. Ela não dá a mínima para o teu existir. Ela não quer saber tua dor. Não entenda a razão. E recolha-te. Ao que te limita. Seja feliz com isso e assim. De um corpo quimera que também pode e encontra prazer. Ninguém garantiu o contrário. Ninguém garantiu diferente. Que para ti, a eternidade merecerias. O nirvana. O deleite. de gozar um segundo da paz que a majestade que é dela te atabalhoa. Então a tua própria faça A eternidade E não perpetue a da imagem que é minha. Que derrama Lodo. De mim. Pois um dia só apenas representei, enganei, encenei. Clepsidra. Me tornei. E não tenho pena De não baixar a cortina. E mostrar-te O tudo que não te dei. Dezembro 12, 2004
O DESTINO ESCONDE. O DESTINO REVELA.
Sinto vibrações tão bonitas. Coloridas. Uma carta bem escrita, palavras ela não diz. Sussurradas, como o desprezo de um olhar que não precisa dizer. Como a leveza da indiferença que não precisa encenar. Vai... Vai embora. O pesar de uma tarde plúmbea. E fica. A brisa de uma noite quente. Devidamente bela. Com a pendência que se esvai. Um começo protelado, um descuido revelado é um destino acontecendo, como quem não sabe que se revela. Um sorriso acolhido dum confesso desatino. De impulsos atolados duma raiva irreal. É a vida e a impaciência que tropeçam no futuro. Me sentiste afobada?
Depois do trabalho lapidado, é terminado, e uma só palavra desarmou. A espera. Como não agradecer, se em agonia desmedida, tua imagem me acalmou? Tua voz, minha derradeira perdição num desejo sem medida? Tuas palavras, sabedoria. Teu timbre, meu calor. Ou o início de toda a pólvora que explode minha razão. De vontades incontidas. Do tentar, quiçá não querer, e esconder o desejo num pavor. Tão valiosos pensamentos. Tão preciosos presságios. Do que não existe e existe tanto quando me queres bem. Dizes e me soas como a cantoria que um dia me encantou. Me acalmas quando lembro de teus olhos e agradeço. Por saber de uma sina rogada a mim. Lembro do caminho e volto a rondar tua voz. Oh, teu ofício. Que me acompanha mesmo de longe quando há sono. E sonhos são realidades adjacentes onde te vejo feliz. Acordo deitada no deleite de teu sopro. Passo a me relacionar bem com teus acordes que me soletram. Anestesiam qualquer perturbação. Lanço-me à arena, procuro um culpado. Entendo que a vida é meu egoísmo disfarçado. Não, nem tanto. A capacidade de disfarçar cabe aos atores e bons. A mim, apenas ser teatral. Novamente o destino age e me dá um pretexto. Com a cara pintada de alma e o rosto lavado de desejo. Assim me apresentei. Me aceitaste. E não precisei pronunciar. Andando a divagar e devagar às entranhas de teu plano minucioso. E a espera. Que terminou. Eu não imaginava. De uma meticulosa neblina que me afagou em ador. De agonia e agonia. Pois anseio ou ansiava o que poderia ter sido o fim e não foi. Quisera eu tivesse sido. Mas tua voz me desarmou. Pois em substrato existe em ti o que respeito. Os teus olhos que me desvelam, tua voz que me canta mesmo quando não sabe.
O teu pulso me redime. E em verbo me faz mulher. Agradeço a paciência. Pois paciente contigo fui. O tempo corre na emergência das almas que não suportam um ser inteiro incompleto. E com o subsídio que me deste, não pedi licença. Escuto tua metalinguagem, me derreto em prosa. Para uma alma que rumo é do desatino que me norteia. Agora para tua alma corro, e aguardo por receber meu corpo de volta. Quando do teu corpo vejo a beleza de um ser gigante. O homem que tanto meu desejo povoou. E se a realidade se faz em pequenos gestos, aproveita-te e transforma-te no sorriso de meus pequenos progressos rumo a um ser indelével, findos na mulher casta dentro de uma menina sacana, que para tua alma se desenhou. Current, so current, soundtrack: It's the end of the world as we know it - REM Hawkmoon 269 - U2 Save me - Remy Zero Dezembro 9, 2004
SORRISO QUE É MEU
Inteiro. Feliz. Inconstante. Com tanto. Dia de chuva, o vitral que barra a luz, deixo-o sempre no meio da janela para o sol que penetra pelos lados iluminando, alumiando e muito mais.
Olhar, loucura doce. Como, chocolate E o corpo O agora, no tempo que é meu Que volta a ser eu Uma doidera de tirar sono Uma vontade de jogar bola de ser feliz e só e paz. De noite. De alma. De esquizofrenia. Angelical e criativa. Sentisse menos, falaria mais Sim Escreveria melhor. Como não, a insensatez firma morada no sentimento do que é meu E hoje e mais e tanto. Oh, poeta que morre e vive a cada dia. Vive mais dentro de mim. Fanfarra. Bom dia. Que belo dia. Para pessoas que escrevem, e muito. Para pessoas que param, às vezes. Para pessoas que dançam dentro de mim, e tanto. Para pessoas que amo, mais do que consigo. Para pessoas que me trazem felicidade, mais do que eu mereço. Dezembro 4, 2004
Quando eu canto Que se cuide Quem não for meu irmão O meu canto PUNHALADA Não conhece o perdão Quando eu rio Quando eu rio Rio seco Como é seco o sertão MEU SORRISO É UMA FENDA Escavada no chão Quando eu choro Quando choro É uma enchente Surpreendendo o verão É O INVERNO DE REPENTE Inundando o sertão Quando eu amo Quando amo Eu devoro Todo o meu coração EU ODEIO EU ADORO NUMA MESMA ORAÇÃO Quando eu canto Baioque - Chico Buarque Novembro 27, 2004
NASCE O SOL
Preciso do ontem quando me deste um pedaço do teu abraço amoroso. Desejo meu desejo quando te escrevo teu futuro glorioso.
Surpreendo-me com a surpresa de te entender em minha vida quando dela já nada esperava. De teus olhos tão belos que me completam e me rimam num falsete engraçado. Agradeço e de repente a alma divina que rascunha parece insensata. Espero, numa pressa calma, tua mudança para a minha distante morada. Dentro de mim, em tons de lilás, sabes fazer um soneto feliz. Andas e andas e me deixas sem graça. Não imaginas o quanto existes no tempo de minha caminhada. Pois sou de jorrar supérfluos em prosa. Comprovei-me quando me li passada. Envergonhei-me e nunca me viste despida. Embora teus olhos me façam nua prefiro deixar-me naquela cabeça só tua. De quem tem as palavras bem postas. Não gosto de vírgulas nem pausas arranjadas. Repito-me e repito e repito. Gosto tanto de ler quando vejo teus pequenos grandes olhos chorarem a alegria és tu. Toda a sede que me faltava é saciada ao saber que te respirarei em prosa simetricamente ritmada. Abaporu, me chamaste e delicada. Sou um desastre, pois tremi e decifraste. Minha sede de vida e fome de tempo. Enalteci tua alma culta e dura. Cruel e rija. Fazendo-me imaginar o dia em que despejarei a impaciência de meus olhos nos delicados dedos teus. Argumento em minha anima, sabor de minha inspiração sem graça. Ao não saber que te escrevo, em cantiga me faz iluminada. Já fiz tanto e me pergunto: literatura faz-se também em carta? Com o perigo de me descobrir em minhas rugas a camada de desejo que despejo em ti. Dono da letra mais bonita, faça-te homem de espírito mais carne dentro de mim. Não entenda minha consciência, é mais prudente. Sou tua menina e ainda não me sabes assim. |